Luiza tem catorze anos e nasceu com um emaranhado de veias que cresce dentro do rosto. Já tomou a bochecha, entortou a boca e agora tá fechando o olho.
Desde os treze, isso passou a crescer muito mais rápido. E quem sempre cuidou dela, levou para consultas de ônibus foi o vô. Ele tem setenta e um anos.
É ele desde sempre. A mãe da Luiza se foi quando ela tinha seis anos, trabalhava sem carteira, e a família nunca recebeu nada. O pai tinha ido embora antes de ela fazer um ano.
QUERO CONTRIBUIR
O vô vive de um salário mínimo, que dá pra comida, pra luz e para os cuidados da pressão dele. Mesmo assim, sai todo dia empurrando um carrinho de reciclagem, com a coluna doendo. Não sobra um centavo pro tratamento.
A operação existe. Uma equipe especializada pode parar isso antes que tome o resto do rosto dela.
Mas custa mais do que ele recebe em dez anos de aposentadoria e a fila leva anos.
Toda noite, antes de ela dormir, ele beija o lado marcado do rosto dela. Era o costume da mãe. Ele nunca esqueceu nem uma noite.
Faz oito anos que quem carrega tudo é esse homem.
Luiza quer chegar nos quinze pra um dia poder ajudar em casa também, e ajudar o avô.